FIRST do Brasil
For Inspiration and Recognition of Science and Technology

"O segredo de construir uma equipe bem sucedida não está em montar a maior equipe possível, mas sim uma equipe que trabalhe unida."

Dean Kamen, Fundador da FIRST

Revista Educação - Edição 145 - Mão na massa

 


Torneios de robótica em Atlanta, nos EUA, mostram que robôs instigam os alunos e os ajudam a entender o mundo em que vivem; time brasileiro ganha primeiro lugar pela performance do robô


REVISTA EDUCAÇÃO - EDIÇÃO 145

Fonte: http://revistaeducacao.uol.com.br/textos.asp?codigo=12693

Autora: Beatriz Rey


Em uma das inúmeras salas do Georgia World Congress, em Atlanta, Estados Unidos, um grupo de crianças brasileiras simula a transmissão de um telejornal. A mais desinibida, Júlia, assume a função de apresentadora e convida os outros integrantes a explicar o desmatamento da mata atlântica brasileira. Outro grupo, do Alasca, invade o lugar e pede para acompanhar o ensaio. "A pronúncia de vocês está mais clara que a nossa", elogia a professora responsável pelo grupo "The Beetles" aos "Emerotecos". Os americanos, para explicar a invasão dos besouros nas florestas de seu estado, criaram paródias a partir das músicas do grupo britânico The Beatles. "Help, I got beetles on me, help!" é uma delas.


Ambas as apresentações ilustram uma das duas tarefas propostas pelo torneio First Lego League (FLL) a 137 mil crianças de 49 países que participaram do evento na capital do Estado da Geórgia entre os dias 16 e 18 de abril. A partir do tema Conexões Climáticas, as crianças realizaram um amplo trabalho de pesquisa e identificaram problemas climáticos em sua região e situações correlatas em outras partes do mundo - o desafio era buscar as soluções para ambos. Os Emerotecos, por exemplo, identificaram o desmatamento da mata atlântica no Espírito Santo, estado onde moram, e na Costa Rica. Como solução, propuseram um sistema de créditos florestais, ou seja, a remuneração financeira dos proprietários rurais que se dispusessem a preservar ou recuperar áreas de floresta nativa em sua propriedade.  A outra parte do torneio é chamada Robot Game (Jogo do Robô) e envolve a construção de um robô autônomo de peças Lego que teria de realizar, durante os três dias de evento, 18 missões em dois minutos e meio. As missões têm relação com o tema. Exemplos: o robô deve enterrar dióxido de carbono, representado por bolas cinzas, no tapete de competição, ou erguer uma ponte que evite enchentes. Para dar conta de ambas as propostas, os participantes têm 10 semanas.


A FLL faz parte de um evento maior, que acontece anualmente nos Estados Unidos: a First (For Inspiration and Recognition of Science and Technology, ou Para a Inspiração e Reconhecimento da Ciência e Tecnologia). É uma organização sem fins lucrativos que busca aproximar a matemática, a ciência e a tecnologia aos jovens. Para isso, promove grandes torneios de robótica. Além da FLL, há a First Robotics Competition (FRC), que propõe uma competição entre robôs autônomos e controlados. Eles devem ser construídos em seis semanas por times que integram jovens de 15 a 25 anos (estudantes de ensino médio e seus mentores). Como o custo de participar da FRC é alto, foi criado o First Tech Challenge (FTC), que trabalha com robôs menores e de fácil acesso. Neste ano, além da participação do Emerotecos, o Brasil foi representado na FRC pelo time Heitortec Trail Blazers , que alcançou a posição 59ª no ranking de desempenho. Os Emerotecos conseguiram o primeiro lugar no Robot Performance Award (Prêmio por Performance do Robô) e terceiro lugar no Programming Award (Prêmio por Programação) - foi a primeira vez que um time brasileiro obteve a premiação pela performance do robô.


Problematização
"Os torneios são bons porque lançam um desafio. As crianças recebem um problema que tem de ser resolvido", aponta a diretora da Estação Ciência e responsável pela concepção e viabilização da Febrace (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia), Roseli de Deus. Por definição, a robótica é o ramo da tecnologia que engloba a mecânica, a eletrônica e a computação, buscando o desenvolvimento de robôs que executem funções. Por consequência, a robótica educacional trabalha conceitos multidisciplinares, como física e matemática. Para Roseli, o ponto de partida para esse trabalho é problematizar - a robótica pela robótica não cumpre um papel educativo. Isso porque, quando parte de um problema concreto, a criança, além de se motivar mais, está participando ativamente da construção de seu objeto de estudo.


"A criança tem uma ideia de que algo pode funcionar de determinada forma e tenta materializar isso. Cria um modelo e busca objetos de verdade que consigam concretizar aquele comportamento que ela imaginava", diz. Isso não significa que os conhecimentos técnicos, de mecânica e programação, por exemplo, não sejam necessários. O que ela defende é um foco na descoberta de problemas a serem resolvidos e não no material em si.

Mas problematizar por problematizar também não funciona. Quando era aluno do doutorado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Daniel de Queiroz resolveu investigar os pressupostos de uma robótica com base construtivista. A partir da observação em oficinas de robótica, percebeu que não é qualquer tipo de problema que funciona com a criança. "Dizer que João e Maria precisam atravessar o rio e precisam de uma ponte não é suficiente. O problema precisa ser elaborado pela criança. Se não há alguma pergunta que ela tenha elaborado, vai ter dificuldades de se inserir", diz.


Em outras palavras, a criança precisa fazer parte do problema. Em uma das oficinas que acompanhou, havia duas meninas que queriam construir uma casa inteligente, mas até então não tinham se questionado o que isso significava em termos práticos. "Num primeiro momento, elas não refletiram sobre o problema do projeto", diz Daniel. Ao serem questionadas, responderam que a casa deveria ter uma porta automática.  "Mas como essa porta vai abrir? Aí surgiu a necessidade de resolver o problema que elas criaram", relata. Na FLL, cada time elabora suas perguntas quando elabora a pesquisa: a criança deve buscar um problema em sua região, com o qual tenha familiaridade. E é nítido que as crianças não se motivam apenas pela competição entre os robôs. No dia em que os Emerotecos apresentaram sua pesquisa, o clima era tão tenso quanto nos momentos do torneio.



Situações diferentes
A First reserva um dia para que os participantes treinem seus robôs no Georgia Dome. O robô criado pelo grupo brasileiro a partir do kit Lego Mindstorms NXT era sensível à luz - assim, quando foi colocado no tapete pela primeira vez não funcionou. Angustiados, os estudantes perceberam que o teto do Georgia Dome era aberto, ou seja, havia mais incidência de luz. A configuração feita para que o robô andasse no tapete aqui, no Brasil, não deu certo de início lá. Nesse sentido, a robótica tem um papel extremamente importante no que diz respeito ao desenvolvimento do pensamento científico. A sequência observação, hipótese, experimentação e generalização está sempre presente.


Roseli ressalta que a ciência e a robótica devem caminhar juntas. Um aluno que consegue observar os fenômenos da natureza vai ser, necessariamente, um bom projetista de robótica. "Ele tem de desenvolver um robô que anda como uma pessoa e vai ter de desenvolver uma capacidade de observação para entender como uma pessoa anda. A partir dessa observação, consegue representar esse movimento em objetos mecânicos", explica. O professor João Vilhete, do Núcleo de Informática Aplicada à Educação (Niede), da Unicamp, vai além: quem tem contato com a robótica pode ser um cientista. "Na medida em que esse ambiente for entendido como um ambiente de produção de ciência, está fazendo ciência e não simplesmente brincando", coloca.


Nesse processo, a presença de um professor é essencial. É ele quem instiga o aluno e faz com que vá sempre além do proposto. Também é função dele orientar as dúvidas no decorrer do caminho. Na First, a configuração desse modelo de ensino da robótica é um pouco diferente. Por terem um desafio muito grande - o torneio -, muitos participantes conseguem ter uma autonomia maior e não estão vinculados a escolas. É o caso dos Emerotecos, cujos integrantes se reúnem semanalmente na casa de um deles. Ivan, Yan, Sofia, Christiano e Júlia estudam em escolas diferentes e têm como mentores os pais de Sofia - Cláudia e Pedro. "Foi engraçado. No Brasil, falam que sou louca de ter reuniões todas as semanas em casa. Aqui, a reação foi outra. Eles me disseram: parabéns pelo seu trabalho", conta Cláudia Musso.

Aliás, a própria First não é um programa de educação tradicional. "Sugerimos que os mais velhos, por terem mais experiência, sirvam de modelo e passem sua experiência, guiando e trocando ideias. O time pode funcionar, sim, sem ter uma escola tradicional por trás. Mas isso não significa que esse modelo tem sucesso num sistema formal de educação", opina Ivan Jorge Boesing, diretor-regional da First Brasil. No caso específico da FLL, ele considera o processo que as crianças vivem no torneio mais importante que a técnica.


"É formar um time, participar de um evento, pensar sobre uma problemática do mundo deles", diz. Além disso, Ivan considera que os pais dão conta da parte emocional dos adolescentes, que afeta muito a participação no torneio. Esse nível de autonomia também existe devido ao ambiente no qual eles cresceram: manusear um kit da Lego não é uma coisa de outro mundo para quem convive com tecnologia desde pequeno - o que, no Brasil, pode ser problemático. "Isso assusta o professor, às vezes. O aluno tem mais tempo para desvendar esses materiais. Mas o que você vê no final é uma boa aliança entre o professor e o aluno, já que é o docente que mostra que o robô não pode ser feito pelo prazer de fazer o robô", pondera Roseli.


* A jornalista viajou a Atlanta (EUA) a convite da First Brasil

 
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